Transtorno de ritmo circadiano sono-vigília

Os transtornos de ritmo circadiano caracterizam-se pelo desalinhamento entre ritmo endógeno e exógeno, isto é, quando a expressão do ritmo biológico do organismo não apresenta compatibilidade com o ritmo social, apoiado nas referências rítmicas das pistas ambientais (por ex. claro-escuro, horário das refeições, horário de dormir e acordar, etc.). O sinal mais facilmente perceptível dessa dessincronização entre o ritmo endógeno e exógeno é a dificuldade em conciliar o sono com o horário desejado ou esperado.
- Jet lag
- Atraso da fase de sono
- Avanço da fase de sono
- Padrão circadiano irregular do ciclo sono-vigília
- Padrão sono-vigília diferente de 24h
- Transtorno do trabalhador em turno
- Diagnóstico e tratamento
Jet lag
O jet lag é um exemplo desse tipo de desalinhamento. Geralmente, o jet lag tem caráter temporário e transitório, pois a permanência no espaço geográfico de fuso horário distinto do local de partida favorece a regulação circadiana paulatina e consequente sincronização do ritmo endógeno com o exógeno.
É uma condição que afeta todas as idades. A intensidade das queixas depende do número de fusos viajados, da direção da viagem (geralmente para leste é de pior adaptação), da capacidade do indivíduo dormir durante o voo, da intensidade da pista temporal circadiana no local de chegada e diferenças individuais.
Existem, ainda, pessoas que vivem essa realidade sem ter feito alteração de fuso horário em decorrência de viagem, apresentando um desalinhamento constante entre o ritmo biológico e o social. Denominamos essa condição de jet lag social.
Com efeito, essas pessoas sofrem constante privação de sono, podendo desenvolver as consequências e os riscos a ela associados, como:
- sonolência excessiva diurna
- desenvolvimento de doenças cardiovasculares
- desenvolvimento de disfunções metabólicas (por ex. Diabetes)
- prejuízo de memória, atenção e concentração
- queda da imunidade
- sintomas gastrointestinais
- alterações de humor e risco do desenvolvimento de transtornos psiquiátricos
- mal desempenho acadêmico ou profissional
- aumento do risco de acidentes laborais e automobilísticos
Essas condições de desalinhamento podem acontecer por diferentes causas e a partir de diferentes manifestações, definidas como se segue:
- atraso de fase do sono
- avanço de fase do sono
- padrão sono-vigília irregular
- padrão sono-vigília diferente de 24h
- transtorno do trabalhador em turno
Atraso da fase de sono
As pessoas com atraso de fase apresentam tendência para início do sono com atraso de 2 horas ou mais em relação aos horários habitualmente praticados pela sociedade. O horário de despertar espontâneo acompanha esse atraso, ou seja, a pessoa tende a acordar mais tarde que a média praticada pelas pessoas.
O sono, uma vez iniciado, é normal. A tentativa para dormir mais cedo resulta em fracasso, demonstrando um padrão de sono consistentemente atrasado.
Pessoas com esse perfil tendem a sentir maior disposição no final da tarde e durante a noite. Em vista da obrigatoriedade de se encaixar em horários mais matutinos praticados pela sociedade, quando acordam mais cedo, sentem muita sonolência e dificuldade de concentração nas primeiras horas depois de acordar. Quando não há pressão para esse despertar mais precoce, como nas férias, não há queixa de sono.
A esse fenômeno dá-se o nome de vespertinidade, que na realidade não seria um problema. Trata-se de um ritmo biológico normal, onde todas as funções orgânicas estão preservadas, apenas acontecendo com certo atraso em relação à média da população. Tomando-se a melatonina como exemplo, o início de sua secreção está atrasada em relação ao horário comum na maioria das pessoas.
É comum observar esse padrão de sono entre adolescentes. Isso acontece porque é durante a adolescência que a tendência à vespertinidade mais fortemente se expressa de modo natural e espontâneo, tendo seu pico em torno dos 18/20 anos de idade. A partir dos 30 anos, começa a haver uma retomada gradual de um padrão mais matutino, facilitando a sincronização entre ritmo endógeno e exógeno.
A necessidade de ajuste aos horários convencionais pode gerar muita dificuldade para dormir mais cedo e, assim, privação de sono. Além disso, a exposição excessiva à fração de luz azul no final do dia e período noturno, como a luz emitida pelos equipamentos eletroeletrônicos, a redução da exposição à luz da manhã e a prática de exercícios físicos no final da tarde/noite podem acentuar o atraso de fase e agravar os efeitos da privação de sono.
A dificuldade crônica para dormir em horários mais adequados pode levar ao uso indevido de hipnóticos, álcool, tabaco e medicamentos controlados. É sob essas condições que essa característica de organização temporal pode gerar efeitos e consequências prejudiciais, caracterizando-se como um transtorno do sono. Nesses casos, o diagnóstico e a intervenção clínica são imprescindíveis para diminuir a dessincronização e, assim, minimizar os efeitos da privação do sono. Pode ser importante nessa etapa a avaliação com actigrafia.
Avanço da fase de sono
De forma semelhante ao atraso de fase, porém inversa, pessoas com avanço da fase do sono tendem a iniciar o sono 2 ou mais horas antes dos horários praticados convencionalmente pela média das pessoas.
Na convivência social, como num jantar entre amigos, são as primeiras pessoas a saírem depois de servido o bolo ou o cafezinho. Isso ocorre porque apresentam um perfil biológico mais matutino, isto é, sentem maior disposição no período da manhã. Acordam bem humoradas, dispostas para conversar, pensar e praticar atividades físicas.
Em compensação, no final da tarde ou início da noite, estão cansadas, com o raciocínio mais lento, comumente sentindo vontade de dormir logo no início da noite. Tomando-se a melatonina como exemplo, o início de sua secreção está adiantado em relação ao horário comum na maioria das pessoas.
Pelo fato da sociedade organizar-se dentro de um ritmo mais matutino, o perfil de avanço da fase de sono é menos observável. Em geral, são pessoas sincronizadas com o ritmo praticado pela sociedade na esfera acadêmica ou laboral.
Entretanto, quando o avanço de fase é muito significativo, gera uma dessincronização importante em relação à sociedade. São os casos em que, ao dormir muito cedo, acorda-se igualmente muito cedo, frequentemente em horários indesejados (por ex. entre 4 e 5 horas da manhã). Nesses casos, o diagnóstico e a intervenção são importantes para propiciar uma melhor sincronização com o ritmo social, favorecendo a convivência social em esferas importantes para a qualidade de vida.
Padrão circadiano irregular do ciclo sono-vigília
A irregularidade do ritmo circadiano caracteriza-se por um padrão caótico do ciclo sono-vigília ao longo das 24 horas. Outras variáveis rítmicas, como o ritmo da temperatura, também estão desorganizados temporalmente. O efeito é a expressão de episódios de sono com duração variável ao longo das 24 horas. Sintomas como insônia, sonolência excessiva e cochilos a qualquer hora do dia ou da noite são comuns sob essas condições. A causa pode estar associada a higiene do sono inadequada e falta de exposição as pistas temporais que favorecem organização do ritmo circadiano, tais como: luz solar, prática de atividade física diurna, horário das refeições, convivência social, etc.
Pacientes institucionalizados, sobretudo os idosos, e pacientes com doenças neurodegenerativas (como demência, Alzheimer) ou retardo mental podem expressar essa desorganização rítmica.
A intervenção é fundamental para propiciar uma organização rítmica imprescindível para o exercício das funções biológicas e promoção de saúde física e psicológica.
Padrão sono-vigília diferente de 24h
O padrão sono-vigília diferente de 24h refere-se à expressão de ritmo circadiano superior a 24 horas, ou seja, quando o “dia interno” é mais longo que a expressão de duração do dia da natureza.
Observa-se mais frequentemente um “dia interno” com duração de 24,5 a 25 horas, mas pode haver casos com duração mais prolongada.
Pessoas com esse perfil rítmico expressam um padrão de sono em livre curso, isto é, o padrão de sono-vigília se expressa de acordo com o ritmo interno, sem sofrer influência das pistas temporais.
Diários do sono ou actigrafia demonstram um padrão de sono-vigília que atrasa a cada dia. Na prática, essas pessoas sentem sono cada dia um pouco mais tarde que o horário do período de sono anterior, ou seja, tendem todos os dias a dormir e acordar mais tarde que o horário praticado na véspera.
Com efeito, passam vários dias do mês dessincronizados do ritmo social, procurando ajustar-se às custas dos efeitos da privação de sono. Essa condição é especialmente prevalente entre pessoas cegas e requer atenção e intervenção para facilitar a sincronização do organismo com o ambiente, de forma a promover saúde física e psicológica e elevar a qualidade de vida.
Transtorno do trabalhador em turno
Trabalhadores em turno podem sofrer dificuldade de sincronização temporal em virtude das alterações de agenda quando o turno não é fixo, como, por exemplo, escalas alternadas que acontecem em algumas fábricas, plataformas petrolíferas ou na aviação. Os efeitos são crônicos do ponto de vista da privação de sono e das dificuldades de organização rítmica, podendo ter a insônia como principal sintoma, mesmo durante as férias.
Escalas de turno noturno fixas facilitam a organização de escalas de sono-vigília durante a noite e dia, especialmente quando a liderança reconhece a importância delas e organiza escalas de sono entre a equipe noturna. Ainda assim, os efeitos podem ser sentidos no organismo em vista do funcionamento naturalmente diurno do ser humano, com toda uma organização fisiológica e metabólica específica para o período da noite e do dia associados ao sono e à vigília, respectivamente.
A inconsistência na regularidade da escala de sono frequentemente observada entre trabalhadores em turno pode resultar em alterações do sistema temporal circadiano, gerando dificuldades de alinhamento persistentes.
A intervenção é imprescindível para orientação e ajustes necessários, tanto do ponto de vista do trabalhador como do empregador. É importante que a equipe de liderança compreenda a importância de incorporar escalas de sono junto às equipes de trabalho noturna, inclusive para otimizar o desempenho dos empregados e para diminuir o risco de acidentes laborais. Um profissional da área do sono pode auxiliar na organização das escalas e orientar práticas que minimizem o risco associado ao baixo volume de sono noturno.
Diagnóstico e tratamento dos transtornos de ritmo circadiano sono-vigília
O diagnóstico dos transtornos de ritmo circadiano sono-vigília depende da avaliação clínica feita por médico do sono, muitas vezes apoiada na análise do exame de actigrafia e do diário de sono preenchido pelo paciente.
O tratamento envolve a higiene do sono, organização da escala sono-vigília e práticas diurnas que favoreçam a sincronização temporal, incluindo exposição à luz do sol, terapia de luz e, muitas vezes, administração de melatonina. É comum haver necessidade de apoio de um psicólogo do sono para colocar em prática esses novos hábitos e consolidar a mudança de rotina.
A AkasA conta com uma rede de psicólogos do sono especializada no manejo dos fatores psicológicos, comportamentais e fisiológicos associados aos transtornos do ritmo circadiano.
